Deveria ser um direito meu, não querer
me encontrar. E quem sabe assim, eu não me achasse nunca e me tornasse um
eterno vai e vem de emoções.
“Ser” é algo mais dolorido do que a
alma humana pode aguentar. Mais dolorido ainda nos tempos de hoje, onde tudo
vale mais do que você. Seu cachorro vale mais. Seu terno vale mais. Suas
viagens valem mais. Seu smartphone vale mais. Seu carro do ano também. Seu amor
vale menos. Sua alma não vale nada. E ela jamais será salva!
As igrejas estão lotadas. Os consultórios também. É a era da doença, da ostentação, da futilidade, do desamor, da falta de apego, da manipulação, do narcisismo, mas não é o fim dos tempos. Talvez, apenas o começo dele. Aqui, começa onde vamos terminar.
Não me encarem como mal humorado ou só
mais um pessimista. Eu não quero, nem pretendo, aconselhar ninguém. Minha
ideia, aliás, é só contar o que passo, pois assim, quem sabe, não corto a
garganta e não me encho de Prozac.
O começo dos tempos: quem diria que
seriam tão difíceis estes anos? Achei que poderia ser minha época de ouro, meus
anos de glória. Sou um falido de mim mesmo. Perdido pra sempre nesse meio
termo. Um pé nos anos 90, outro aqui nesse futurão escroto que todo mundo ama.
Não posso reclamar. Eu não o amo, mas o
venero. Há, como eu o venero! A abordagem dada as nossas vidas, como se
estivéssemos para sempre presos em eternos festivais. Estamos tão obcecados por
este estilo de vida perfeita que esquecemos de viver para nós mesmos.
Eu já tentei me interiorizar, fugir
pros alpes, me ver livre de tudo isso que me torna tão sujo e com a impressão
de tantos fardos. Eu, com meus vinte e muitos anos, sinto-me como carregasse a
idade da humanidade. Somos agora seres estranhos que sabemos de tudo sem a
menor profundidade mas com aura de especialistas.
Já conversei com Buda, Deus, Allah e Oxalá.
Já procurei um pastor, um padre, um macumbeiro e minha psicóloga. São eles que
me restam nessa solidão que levo tão bem acompanhado. Eu os procuro, eu os
esqueço. Depende da minha carência. Da minha carência de mim, da minha carência
deles, da minha carência do que disseram-me que eu poderia ser e que até agora
não me tornei.
Afinal, o que vocês querem? Eu tenho vontade de gritar no maior pico,
com o maior eco: Afinal, o que vocês querem? E eu posso me ouvir respondendo no
silêncio sem resposta: quero ser eu. Este é o problema, me enganaram. Me
engaram!
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