terça-feira, 15 de outubro de 2013

Esbarrava com ele todos os dias pela manhã quando voltava da minha corrida matinal. Estava sempre todo engravatado com cheiro de perfume importado e barba feita, o que, aliás, eu achava um desperdício. Quando toda vizinhança soube que tinha sido abandonado pela esposa, ele desfilou por aí meio maltrapilho e com a barba por fazer. Mesmo vestindo uns trapos e sabendo que aqueles olhos vermelhos não derivavam de um simples baseado, eu o achava ainda mais charmoso.
Tinha apenas dezessete anos quando me apaixonei por João. Meu vizinho gato, casado e com uma vida perfeita. Ele e sua esposa eram o tipo de casal margarina, com exceção, é claro, do cachorro. O que faltava neles eu tinha: meu bom e velho Freddo. Um labrador gordo que me fazia passar as maiores vergonhas e não aguentava cinco minutos de caminhada comigo.
Um dia, quando ia subindo as escadas com Fredo no colo, porque meu cachorro tinha medo de usar o elevador e tinha preguiça de subir degraus, João ia descendo arrumado para ir ao trabalho. Ao que parece, ele sofria dos mesmos traumas “elevadorescos” do meu “cão de guarda”. Passou a mão no pelo amarelado do meu labrador e soltou um suspiro de quem a esposa não deixava ter um animal de estimação. Deu-me bom dia e perguntou como estava indo meu pré vestibular, pois, minha mãe o havia encontrado um dia desses e comentou que assim como ele, eu também iria cursar direito. Como Freddo, minha mãe também me fazia passar algumas vergonhas. Acabei por responder meio sem jeito que ia bem e que já até tinha passado por alguns exames. Inacreditavelmente a puta da vida me deu uma chance e ele me ofereceu ajuda, avisou que quando tivesse dúvidas, não hesitasse em procura-lo, pois, já havia passado por isso e blá, blá, blá. Nesse meio tempo fiquei anestesiada e juro que se pudesse me olhar, veria uma adolescente com algum problema mental babando com um cachorro gordo no colo.
Fiquei algumas semanas sem rever meu vizinho. Talvez umas 4 ou 5. Acordei em uma madrugada com uns gritos de “Não quero mais essa vida” e “Não te amo mais”. Até entender o que se passava, todas as janelas do meu antigo prédio já estavam abertas e com as luzes acesas. Tarde demais para João. Há essa hora, todas as vizinhas já sabiam o que acontecia. Ainda consegui ouvir alguns vidros se quebrando. Porta retratos, com os mais bonitos sorrisos de casamento que já vi em minha vida, voaram pela janela. Achei um desperdício de felicidade. O silêncio se deu quando ouvimos uma porta bater. Não sabíamos quem tinha saído. Fui descobrir no dia seguinte, quando encontrei meu vizinho, dez anos mais velho que eu, chorando na escada como se fosse dez anos mais novo. Não soube o que fazer. Ele estava ali, horrível, caótico, quebrado, de ceroulas e camiseta velha de uma marca surfwear não usável. Freddo estava comigo, o coloquei para dentro de casa e voltei para sentar ao lado de João. Olhou-me e meio como se não tivesse opção soltou um “Ela me largou”. A minha vontade era avisar que eu, assim como todos que moravam ali, já sabia. Mas meio que fiquei com dó e lembrei que não estava lidando com alguém da minha idade. Coloquei-me no lugar do cara que tinha uma vida perfeita, foi chutado pela esposa perfeita e que já devia ter 27 anos. A única coisa que passava pela minha cabeça era pedir uma vaga de estagiária de esposa no lugar da falecida, mas imaginei que essa ideia não daria certo. Então dei a mão para ele e soltei um “Essas coisas acontecem”. Foi o máximo que consegui, apesar de ter me esforçado tanto. A pessoa que eu queria estava ali, na situação mais trash que já tinha visto e eu não era capaz nem de consolá-lo. Não me culpo, só tinha dezessete anos e acredito que o fim de um casamento trás traumas para uma vida inteira, ninguém é obrigado a saber lidar, nem eu.
João não quis explicar o que aconteceu, limitou-se a chorar, aliás, a despencar em meu colo por mais um tempo enquanto eu o observava igual uma maria mole. Assim que se recompôs lembrou que eu era uma adolescente e perguntou sobre minhas provas, avisei que estava um pouco travada com algumas matérias e, mais rápido do que eu esperava, se ofereceu prontamente para me ajudar.
Passei a frequentar a casa do meu vizinho aos finais de semana. Percebi que não havia mais nenhuma foto e que o apartamento tinha virado um típico apartamento masculino, sem muitas delongas e maiores frufrus. João era um professor incrível e estava realmente empenhado em ensinar. Aos domingos, comecei a perceber alguns amigos em sua casa e vi que ele se recuperava bem. A ajuda dos amigos e seu novo hobbie de professor o estava incentivando a sair da velha e amarga fossa.
Minha paixão platônica começou a me dar carona para o cursinho e com alguns gostos musicais em comum, fomos nos descobrindo. Um dia, antes de sair do carro, João me segurou pelo braço e avisou que queria me agradecer por tudo que eu estava fazendo por ele. Meu coração parou. Mas ele, calmamente, só me chamou para um jantar no fim de semana.
No sábado de manhã me ligou para confirmar se eu ainda não tinha desistido, sorri e avisei que não, que às 18h, como combinado, estaria pronta. E assim foi. Estava tão ansiosa que nem me atrasei. Meu acompanhante era basicamente um príncipe, daqueles de dar inveja a Duquesa Katy. Fomos a um dos meus restaurantes favoritos e realmente foi tudo incrível. No fim da noite, quando ele, da maneira mais clássica possível, foi me deixar na minha porta, que era apenas um andar acima do dele, acabamos nos beijando. E foi uma das coisas mais intensas que já vivi. Nossos lábios apenas se tocaram e, de repente, foram tomados por uma intensidade de sentimentos que nem sabíamos que existia. Quando paramos, não sabíamos bem o que dizer e ficamos ali, por alguns segundos, nos olhando. Soltei um “boa noite” e ele se tocou de que devia subir, me deu um último e estranho beijo na testa e subiu.

Foi meu primeiro e único beijo em João. Depois desse episódio, nunca mais o vi e nem sei por onde anda. No dia seguinte, já não estava mais em seu apartamento e o porteiro avisou que tinha saído de madrugada com as malas arrumadas e que já havia uma semana que o apartamento estava à venda. Eu nunca o esqueci, vira e mexe, quando ando pelas ruas do Centro do Rio ainda sinto seu perfume perdido em meio a todos aqueles engravatados. Também acabei optando por não cursar direito, mas por João, eu teria ido até o Supremo Tribunal. 
Nem tão perto, nem tão longe. 
A vida se faz espelho no tempo que ela quiser.
Maldita essa minha sensação de que tudo foge do controle. 
Odeio pensar que não mando nas voltas que ela dá. 
É um desafio exaustivo ter que levantar da cama todos os dias e se redescobrir a cada novo gesto. Não temo os anos que passam. Ou temo? 
Essa inquietação que não sei de onde vem, machuca sabe? Querer saber o que ninguém pode responder, me leva sempre a um lugar onde não deveria estar. Eu não aprendo isso. Aliás, voltando de onde tudo começou. Não vejo necessidade nessas voltas que a vida dá. Todas levam-me aos meus erros, uns novos, outros velhos empoeirados. Acabo por pensar e saber que o erro sou eu próprio. Isso. Sou o erro em pessoa. Bato a cabeça em meus joelhos todos os dias pela manhã para me forçar a lembrar que então as voltas que a vida dá são para que eu recorde dos erros. De todos eles. Mas os erros sou eu. Fui feito deles, sou todo eles. Cada partezinha de mim me remete a um erro que talvez não queira esquecer. Eles estão lá, me moldando e me montando. Fazendo de mim o erro mais errado da vida deles. Eu não aprendo, porque gosto de errar. Sou o erro mais errante dessas voltas que a vida dá.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Humanos Seres São

Com uma fé no mundo que nunca vi antes, essa primeira vai com o vento. Sempre foi assim, ela nunca sai do eixo e quando sai, só é engraçado. Já vi pessoas sentirem tanta raiva que causam até tremor na terra. Mas com essa não, a raiva dela é branda, quase calma. Controverso eu sei, é que a criatura também é assim. Estranha, esquisita e boa. Sim, vos digo, boa como nunca conheci outra igual. A doida não cultiva rancor, nem inveja e leva o perdão em uma maleta que nunca larga. 
Desde que o universo é universo, ele é sujo. E esse é um dos motivos por eu não entender como ela vê tanta beleza em tudo. O ombro amigo mais democrático da face da terra não tem inimigos e se encanta fácil com qualquer animal, seja ele racional ou não. De fácil trato e de cuca leve, tenho certeza que teria facilidade - tipo “so easy” mesmo - de viver em uma choupana, com umas roupas feitas de saco de batata, um fofo vira-lata e a água do mar pegando seus pés. Estou rindo – mesmo – por que é muito fácil imaginar essa cena.
Já o outro, de cabelo da mesma cor do coração, também é de fé, mas não no mundo. Esse odeia o mundo, o mundo é um cão para ele, mas tem fé em Deus, uma fé inabalada que várias vezes foi transferida a mim, sem cobranças, por um aperto de mão, um abraço ou seu clássico beijo na testa.
Este não cobra taxas por sua amizade e não pode ser comparado a nenhum outro ser deste mundão divino. O pouco que entendo sobre o começo de nossa camaradagem é que somos nada parecidos. Caipora, como acabei de apelida-lo, andava pelos corredores com jornal embaixo do braço dialogando sobre as notícias de economia e política, o fato interessante nisso tudo era nossa pouca idade, mas apesar de tal fato o danado era entendido do assunto.
O moleque parecia perturbado das ideias e nada como um assunto de cunho sexual para deixa-lo com as facetas rosadas. Isso nos divertia, digo nós, a louca da choupana e eu..
Tornamo-nos, então, integrantes perfeitos de uma patota mal feita, mal desenhada, desleixada e sem um tostão no bolso. Vivíamos, e vivemos até hoje, a base de encontros não arranjados e boas comilanças. Nos suportamos assim, de boa prosa e pança cheia. Isso faz da nossa amizade mais gostosa do que a de todos vocês que nos leem agora.




quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Diálogos adulterados de situações que nunca aconteceram (Parte 1)

E até que ponto nos perdemos de nós mesmos? E até que ponto se perder não é, na verdade, se encontrar?

No escritório, na mansão do pai:
(GRITANDO) Mas eu nem comecei ainda, ele respondeu, com ira, ao pai que esbravejava sobre suas últimas atitudes.
(GRITANDO) Você tinha tudo pra dar certo nessa vida João, você só precisava querer. Largar esses sonhos bobos de pegar a estrada, esquecer essa gente malcriada com quem você se misturou e ir à luta. Ir à luta comigo, na nossa empresa, com sua família. Porque nós, nós quem somos sua família João.
(AGORA EM SEU TOM DE VOZ HABITUAL) Mas pai, eu já falei mil vezes, essa não é a minha. A minha é a praia, é o mar, é mundo pai. É o mundo, eu quero ser o mundo, eu sou o mundo o tempo todo. Todos deveríamos ser. É por isso que eu acho que está tudo errado.
(UMA VOZ JÁ ALTERADA E SEM PACIÊNCIA) Tudo o que João? Mas que tudo é esse que eu nunca vejo?  Que tudo é esse que nunca é suficiente João? Que tudo é esse que sempre te falta? Me explica, porquê eu nunca te entendo?
João olha para o pai, como se soubesse que ele ainda precisava falar mais. (Estava certo) E pela primeira vez na vida vê aquele homem, a quem sempre admirou, chorar. A cara de branca já estava vermelha. O pai que segurou as lágrimas por tanto tempo, já não conseguia esconder o quanto sofria.
(SENTADO EM UMA POLTRONA NO CANTO DO CÔMODO, SUA VOZ ERA BRANDA E CHOROSA) – O problema é com essa geração, vocês se comunicam em códigos... Eu já não entendo mais nada meu filho.
(VOZ CALMA E TRISTE) Não há muito que entender, pai.
Silêncio. Os dois se calavam porque sabiam que no fundo aquela discussão não daria em nada. Era sempre a mesma coisa, toda vez que João, o impávido João, voltava para casa e anunciava de imediato sua partida, isso acontecia.
Primeiro discutiam, depois o filho pegava sua mochila e saia pelo mundo real, sendo um homem que nunca existiu. O pai ficava... Sempre. Olhava pela janela e se comia em rancor, se definhava toda vez que essas despedidas forçadas e egoístas aconteciam.
Não sabia mais o que sentir. O corpo doía, sentia saudade, amor, e se quer saber, até um pouco de inveja. Tudo ao mesmo tempo.