E até que ponto nos perdemos de nós mesmos? E até que ponto se perder não é, na verdade, se encontrar?
No escritório, na mansão do pai:
(GRITANDO) Mas eu nem comecei ainda, ele respondeu, com ira, ao pai que esbravejava sobre suas últimas atitudes.
(GRITANDO) Você tinha tudo pra dar certo nessa vida João, você só precisava querer. Largar esses sonhos bobos de pegar a estrada, esquecer essa gente malcriada com quem você se misturou e ir à luta. Ir à luta comigo, na nossa empresa, com sua família. Porque nós, nós quem somos sua família João.
(AGORA EM SEU TOM DE VOZ HABITUAL) Mas pai, eu já falei mil vezes, essa não é a minha. A minha é a praia, é o mar, é mundo pai. É o mundo, eu quero ser o mundo, eu sou o mundo o tempo todo. Todos deveríamos ser. É por isso que eu acho que está tudo errado.
(UMA VOZ JÁ ALTERADA E SEM PACIÊNCIA) Tudo o que João? Mas que tudo é esse que eu nunca vejo? Que tudo é esse que nunca é suficiente João? Que tudo é esse que sempre te falta? Me explica, porquê eu nunca te entendo?
João olha para o pai, como se soubesse que ele ainda precisava falar mais. (Estava certo) E pela primeira vez na vida vê aquele homem, a quem sempre admirou, chorar. A cara de branca já estava vermelha. O pai que segurou as lágrimas por tanto tempo, já não conseguia esconder o quanto sofria.
(SENTADO EM UMA POLTRONA NO CANTO DO CÔMODO, SUA VOZ ERA BRANDA E CHOROSA) – O problema é com essa geração, vocês se comunicam em códigos... Eu já não entendo mais nada meu filho.
(VOZ CALMA E TRISTE) Não há muito que entender, pai.
Silêncio. Os dois se calavam porque sabiam que no fundo aquela discussão não daria em nada. Era sempre a mesma coisa, toda vez que João, o impávido João, voltava para casa e anunciava de imediato sua partida, isso acontecia.
Primeiro discutiam, depois o filho pegava sua mochila e saia pelo mundo real, sendo um homem que nunca existiu. O pai ficava... Sempre. Olhava pela janela e se comia em rancor, se definhava toda vez que essas despedidas forçadas e egoístas aconteciam.
Não sabia mais o que sentir. O corpo doía, sentia saudade, amor, e se quer saber, até um pouco de inveja. Tudo ao mesmo tempo.
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